Wednesday, September 7, 2005

Desilusões


Uma amiga confessou outro dia que seu desencanto com o PT havia até virado tema de suas sessões de terapia. Isso ocorreu com muita gente, pois as desilusões políticas, a exemplo das amorosas, também afetam bastante a parte traída, mesmo que o traidor, ainda que pego com batom ou dólares na cueca, negue sua culpa até a morte
.

Eu já tive muitas desilusões políticas. A primeira foi com a Libelu, uma tendência estudantil dos anos 70, da qual eu era simpatizante, influenciado por umas militantes que trabalhavam comigo e defendiam o trotskismo, o rock ‘n’ roll e, o que era melhor, o sexo livre.

Nesse caso, a decepção veio logo. Na greve dos jornalistas de 1979, minha amiga mais íntima e mais combativa da Libelu faltou ao nosso encontro para o primeiro piquete na frente do Estadão. Fiquei preocupado, pois algo grave deveria ter ocorrido, afinal era o momento histórico mais importante de nossas vidas. “Chegou visita em casa”, justificou ela, depois, para meu espanto.

Mais tarde, desapontei-me também com os demais integrantes dessa corrente política que, ao tornarem-se chefes nas redações, passaram a se comportar como os antigos representantes do Partidão (PCB), cujas práticas aparelhistas e o comportamento patronal sempre condenaram.

Com o passar dos anos, as desilusões foram se repetindo, numa “sucessiva sucessão de insucessos”. Como a derrota das diretas-já, por exemplo. Não quis acreditar quando vi que parte do próprio PMDB, na calada da noite, havia tramado contra sua aprovação no Congresso, para garantir a eleição de Tancredo Neves.

Pouco tempo depois a decepção foi com o PT que, apesar de defender o parlamentarismo, votou contra no plebiscito porque o Lula estava em primeiro lugar nas pesquisas para presidente. Mostrou-se um partido tão casuísta quanto os demais, principalmente os de direita. Senti muito, pois até então eu só associava a palavra casuísmo à ditadura.

Em seguida, foi a vez dos meus ídolos da MPB, Gil, Caetano, Chico e Gal, que superfaturaram os cachês naquele reveillon de 2000, no Rio de Janeiro. Santa inocência! Até essa data, eu achava que eram só os empreiteiros que superfaturavam suas obras quando o cliente era o governo.

Por fim, foram os franciscanos da Vila Clementino. Os frades seguidores daquele que virou santo exatamente pelo voto de pobreza venderam, literalmente, para uma incorporadora, sua casa paroquial, que fazia um belo conjunto arquitetônico com a Igreja de São Francisco de Assis, na rua Borges Lagoa. A casa foi demolida para dar lugar a um prédio de flats de luxo.

Por essas e outras é que não devemos nos iludir com ninguém. Eu mesmo, na minha insignificância, já desiludi algumas pessoas na vida. Mas não vou discorrer sobre isso para não desiludir vocês também, leitores deste blog, pois como ensina o professor Delúbio, “transparência demais já é burrice“.

Posted by JLT in 01:00:30
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